REGISTRO NA FUNDAÇÃO BIBLIOTECA NACIONAL: Nº 397481
Capítulo IV - As dúvidas de Vanessa

Segunda, 4 de dezembro de 2000.

 

Íhvan tinha dormido mal aquela noite, pensando durante horas seguidas o que diria a Vanessa quando ela lhe pedisse para explicar tudo que tinha acontecido na noite anterior. Logo na noite em que aceitara o convite da namorada, que insistia para saírem mais juntos, de ir ao show que aconteceu naquela noite, na velha fabrica metalúrgica, aconteceram tantos fatos estranhos. Ele repetia para si mesmo: “Sabia que sair em público dessa maneira causaria estragos. Mas nunca pensei que seriam tantos”.

Sempre que fechava os olhos tentando dormir, para condicionar os pensamentos, vinha em sua mente a imagem de Vanessa dizendo-lhe que não suportava mais viver com uma aberração, que nunca mais queria vê-lo em sua frente outra vez. Aquilo para ele era o pior pesadelo que podia ter. Passou a noite pensado nos fatos, lembrando que havia duas pessoas por aí com habilidades tão incríveis quanto as dele. Sem falar no homem a quem mataram naquela noite. Matar animais em sacrifício para ele era normal, mas não se lembrava de ter matado algum humano antes. Se bem que o máximo que tinha feito era torcer para que ele morresse logo, não havia contribuído em nada naquilo, mas não achava nada demais matar qualquer ser vivo, pois para ele a vida era só uma fase da existência.

No entanto ele era cúmplice do assassinato, assim como Vanessa, e não poderia deixar que a polícia chegasse até ela, mas não imaginava o que poderia fazer a respeito. Decidiu afastar aquelas preocupações da cabeça, pegou um livro que tratava de magia negra e começou a ler para passar o tempo, já havia desistido de dormir. Ia esperar ficar um pouco mais tarde para ir à casa de Vanessa e tirar suas duvidas, antes que ela fosse à faculdade.

Entrementes analisou mentalmente sua namorada. Ela cursava a faculdade de história antiga e medieval, fazia estágio de meio período no instituto de história e museulogia, seus pais eram professores universitários, mas atuavam no campus das áreas exatas, sua família tinha uma vida normal e corriqueira, a não ser pelo fato dela seguir a bruxaria e namorar ele, que de fato, ele próprio reconhecia que era algo anormal. E Vanessa, para ele, era perfeita, linda com seus cabelos negros, que realçava a cor rosada de sua pele, era inteligente e muito culta, e melhor ainda, suportava-o, coisa que ninguém tinha feito antes. Sempre que vinha pela rua e passava perto das pessoas, elas se afastavam com aversão. Isso desde criança. Cresceu odiando as pessoas, e quando descobriu a existência de seus poderes, sentiu que era superior, pois na concepção dele os mais fracos deviam temer os mais fortes. Passou a sentir-se como uma divindade.                 

 Lembrou de repente que não tinha pais. Não lembrava o que acontecera com eles. Mas também não sentia falta deles, nem se importava se existiram ou não. Mas pensou em si. Não trabalhava, nem sequer estudava. Vivia lendo coisas sobre ocultismo em seus livros, bibliotecas e numa loja de artigos esotéricos que havia na esquina próxima a sua casa, onde tinha muitos livros interessantes sobre magia de todos os tipos. Lembrou então que ele não se alimentava. Não sentia fome, nem certas necessidades fisiológicas, como as pessoas normais. Lembrou que nunca ficou doente em sua vida.

“Realmente sou uma divindade”. - Pensou Íhvan.

Já passava das seis da manhã quando Íhvan decide levantar da cama. Guardou a meia dúzia de livros que havia empilhado em cima da cama após tê-los lido. Resolveu tomar banho para ir à casa de Vanessa. Após o banho ele vestiu, como de costume, roupas pretas cobertas pelo seu sobre tudo. Eram sete e meia quando saiu. O dia já estava claro, porém o sol não aparecia no céu. O dia estava nublado, mas não parecia que ia chover. Íhvan sentia o tempo daquele jeito muito agradável, afinal, não suportava o sol. Andou até a rua principal e pegou um taxi para a casa de Vanessa. Quando saltou e fez menção de puxar o dinheiro para pagar, o taxista disse desconcertado e temeroso, que não precisava pagar por um percurso tão curto, e arrancou com o carro antes que Íhvan pudesse dizer qualquer coisa.

“Idiota covarde. Você vai ter seu pagamento quando menos esperar. Toda a humanidade ainda será castigada”. - Pensou Íhvan com grande ódio tomando conta do seu corpo.

Tentando controlar seu gênio explosivo, ele respirou fundo e tentou lembrar o que iria falar para Vanessa. Íhvan dirigiu-se à casa dela, que se situava a uma rua perpendicular à estrada principal. Chegou na porta de entrada e tocou a campainha. Veio uma mulher, baixa e roliça com um pano branco estampado com bolinhas vermelhas na cabeça, atender a porta.

- O que quê o senhor deseja? - Pergunta a mulher.

- Quero falar com a senhorita Vanessa.

- Só um momentinho. - Ela pôs metade do corpo para o interior da casa e gritou: - Senhorita Vanessa, tem um rapaz com cara de vampiro querendo falar com você. - Naquele momento, se a natureza de Íhvan não fosse tão fria, ele teria rido, pois achou graça do jeito com que a mulher referiu-se a ele. Íhvan ouviu a voz de Vanessa, ao longe respondendo.

- Mande-o entrar, por favor.

A mulher virou para Íhvan novamente repetindo a ordem de Vanessa.

- Pode entrar senhor, ela está no quarto, terceira porta à direita, lá em cima.

Íhvan passou pela mulher, que deduziu ele ser a empregada, subiu a escada até o quarto da namorada. Ao entrar viu Vanessa sentada na cama, de frente para janela e de costas para a porta. A cama estava desarrumada, com as cobertas jogadas para o lado, quase caídas no chão. Vanessa sentada com as pernas cruzadas. Usava uma camisola preta translúcida, com uma das alças caindo do ombro, fitava as palmas das mãos em forma de concha, como se houvesse algo extraordinário nela. Falou a Íhvan sem se virar para olhá-lo.

- Íhvan é você mesmo?

- Sou sim, Vanessa. - Respondeu Íhvan estranhando a pergunta. - Alguma coisa errada?

- Você vai explicar o que você prometeu?

- Sim. É pra isso que estou aqui.

- Bem, então o que é você, o que são aqueles outros dois que a gente encontrou no show? Quem era aquele homem que mataram? - Começa Vanessa ainda olhando para as palmas da mão.

- Eu não sei bem como classificar-nos, mas digamos que somos uma espécie de paranormais, ou magos, ou feiticeiros. O que importa é que temos capacidades além da compreensão humana. Até ontem, eu não tinha conhecido ninguém que também possuísse essas habilidades. Cada um, pelo que pude perceber, desenvolve isso de acordo com seu interior. Por exemplo, eu consigo lidar com espíritos, controlá-los como bem entender. Posso curar ferimentos, e nem sinto vontade de comer. Isso porque, como você sabe, eu lido com o limiar da vida e da morte. Você pode não aprovar meus métodos, mas ao sacrificar uma criatura qualquer minha força parece crescer.

- Você pode voar ou coisa assim?

- Não, nunca voei. Mas uma vez quando era pequeno consegui criar asas de morcego. Entretanto depois disso não voltei a fazer coisas tão absurdas novamente.

- Então me diz uma coisa. - Agora Vanessa tinha um tom ligeiramente envergonhado na voz. - Você acha possível ver fadas?

- Vanessa você viu uma fad...

- Você acha possível? - Insistiu Vanessa.

- Ah, sim claro que é. Mas Vanessa se você viu fadas, quer dizer que você também é uma... - Íhvan foi aproximando-se de Vanessa lentamente.

- Já sei. - Vanessa deu um salto pro lado da cama, da qual Íhvan já estava próximo. Ela aterrissou de joelhos sobre o colchão, com o corpo jogado para frente apoiado sobre os dois braços. Ela olhava-o com um brilho empolgado nos olhos. Íhvan contemplou-a, as alças da camisola caiam dos ombros deixando seus seios à amostra, mas sem revelá-los completamente. Íhvan mordeu os lábios, excitado. Vanessa não se importou com isso, levantou da cama encolhendo os ombros para que a camisola caísse deslizando pelo seu corpo, ficando apenas de calcinha, jogou a camisola para o lado com uma das pernas. Foi até armário e pegou um vestido preto e jogou-o por cima de si. Calçou uma sandália que estava por perto, e Íhvan observava ao espetáculo boquiaberto. Então Vanessa parou com sua torrente de movimentos desenfreados para se arrumar, e falou a Íhvan sem se virar para encará-lo.

- Íhvan, eu preciso sair. Preciso falar com alguém. Depois eu falo contigo. - Passou pela porta e desceu correndo a escada, ouviu-se a porta da frente bater.

Íhvan parou ali absorto por alguns momentos, tentando compreender a atitude de Vanessa. Decidiu que seria melhor não pensar nisso naquele momento. Depois iria esclarecer tudo com Vanessa assim que ela voltasse, da onde quer que tenha ido. Saiu da casa da namorada, momentos depois dela, lembrou que tinha que preparar as coisas para o ritual de sacrifício que faria a noite. Ficou ocupando a mente com isso pelo resto da tarde.

***

Vanessa chegava na faculdade no mesmo instante que a aula de perspectiva, de Flávia e as amigas, terminara. Vanessa conhecia Flávia de longa data. Haviam cursado o ensino médio juntas. Vanessa considerava Flávia a pessoa mais sabia que já conhecera, sempre procurava os conselhos dela, e agora precisava deles mais do que nunca. Ela encontrou as quatro amigas saindo da sala.

- Mais afinal quantos pontos de fuga têm este desenho? - Comentava Karla indignada com o trabalho que o professor passara.

- Bem Karla, a figura central tem que ter dois pontos de fuga, e... - Começou Nina a explicar.

- Flávia. Preciso falar com você. - Vanessa segurou Flávia pelo braço chamando sua atenção.

- Vanessa. O que houve? Tudo bem. Gente, eu encontro vocês lá embaixo na lanchonete.

As três olham-na reparando que o assunto com aquela garota que não conheciam, devia urgente.

Vanessa e Flávia foram para a biblioteca conversar em particular.

Na lanchonete elas conversavam sobre as coisas estranhas que vinham acontecendo ultimamente. O desaparecimento de Andhy, a destruição do jardim botânico, o desastre do show de heavy metal, o sonho que todas tiveram na mesma noite que era, na verdade, tudo real e o fato de serem, pelo que parecia, paranormais. Até mesmo o fato de aquela garota vir falar com Flávia tão desesperadamente, parecia-lhes um mau presságio.

Vinte minutos depois, volta Flávia com Vanessa ao seu lado. As duas pareciam preocupadas e afoitas ao mesmo tempo.

- Gente. Deixem-me apresentá-la a vocês. Esta é Vanessa. Vanessa estas são: Karla, Nina e Adriana. A Vanessa faz história aqui na universidade. Ela me contou algo muito interessante, e acho que vocês devem saber também, ela concordou em contar a vocês. - Flávia sentou-se apontando uma cadeira para Vanessa. - Bom! Vanessa pode começar.

Vanessa contou todos os acontecimentos do show. Karla, Nina e Adriana ficaram impressionadas com a história, que apesar do que já haviam presenciado, parecia fantástica demais para acreditar.

- Então quer dizer que seu namorado também é paranormal? - Perguntou Karla.

- Eles realmente mataram uma pessoa? - Indagou Adriana impressionada.

- E quanto aos outros dois, você conhece? - Perguntou Nina.

- Não. Nunca os tinha visto antes. - Responde Vanessa. - Mas minha preocupação é com Íhvan. Ele disse que sacrificava animais para ficar mais forte.

- E se estiverem todos juntos. Quer dizer, esses três, o cara do jardim botânico que atacou Andhy e a gente! - Contesta Flávia.

- Temos que fazer alguma coisa. Andhy sumiu e não conseguimos encontrá-lo em lugar algum, nem em hospital nem no IML (Instituto Médico Legal)

- Comenta Karla.

- Em minha opinião deveríamos falar com Íhvan. Talvez ele tenha respostas para muita coisa. - Considera Flávia.

- E o que você acha que devo fazer Flávia? - Pergunta Vanessa já imaginando a resposta da amiga.

- Eu acho que você deveria evitar ficar a sós com ele, por enquanto. Esses três parecem perigosos. E quanto ao que aconteceu hoje pela manhã, não se preocupe, você não enlouqueceu. - Vanessa, naquela manhã, antes que Íhvan chegasse, assim que acordou, viu um raio de sol entrar pela janela. E o raio da alvorada não incomodava seus olhos, do contrario, parecia revitalizá-la. Ela levantou e sentou-se com as pernas cruzada virada para janela. Percebeu então que a luz não era provinda do sol, já que o tempo estava nublado desde o entardecer do dia anterior. A luz vinha de outra fonte. Vinha de algo que voava frente a sua janela. Estendeu as mãos em forma de concha para apanhá-la. A criaturinha pousou sobre sua mão. Constatou que a fonte da luz era nada menos que uma fada. Ou pelo menos era o que pensava que era. A fadinha em sua mão, pegou em uma bolsinha muito pequena um punhado de pó, e soprou-o em Vanessa. O pó brilhava como purpurina, o qual fez com que sentisse que alguma coisa dentro de si havia mudado. Então ouviu a voz da empregada anunciando que Íhvan estava a sua espera. Sentiu voltar de um devaneio. Mas agora sabia, pelo que Flávia lhe dissera, ela não estava endoidando, aquilo poderia até se dizer normal.

- Então todas concordam que devemos ir primeiro atrás de Íhvan?

- Sim. - Concordam todas com Flávia.

- Portanto Vanessa, você vai nos levar a casa dele hoje depois da aula. Tudo bem?

- O.K.