REGISTRO NA
FUNDAÇÃO BIBLIOTECA NACIONAL: Nº 397481
Segunda, 4 de dezembro de 2000.
Segundo dia.
- Não! Não!
- Aaaah!
- Nina acordou gritando de sobre salto. Havia sonhado. Um sonho
estranho. Parecera tão real.
Sonhara que ela, Karla, Adriana, Flávia e Andhy estavam no jardim botânico da
cidade para fazer um trabalho de campo para aula de desenho artístico. Estavam
todos na lanchonete do jardim, e conversavam descontraidamente. Foi então que
Andhy levantou dirigiu-se a ela, tocou-a no rosto agachou até ficar cara a cara
com ela, e a beijou tocando seus lábios com os dela. Logo depois disso levantou,
foi afastando-se de costas sem nada dizer, mexia seus lábios como se falasse
mais não saía som algum de sua boca. Então seu corpo foi se transformando em
névoa a começar pelos pés, uma brisa veio de lugar nenhum e aos poucos foi
levando a névoa, fazendo o corpo de Andhy desaparecer. A última imagem que Nina
viu de Andhy fora um sorriso de despedida.
Ela correu tentando perseguir a névoa que era levada pela brisa. Foi correndo
por entre a vegetação, desviando das árvores em seu caminho, chegou a uma
pequena clareira onde havia um lago. Sobre este lago estava Andhy flutuando um
palmo acima. E bem a sua frente encontrava-se um homem mais alto que Andhy,
vestindo um manto negro com um capuz que escondia seu rosto nas sombras. Esse
homem estendeu-lhe o braço e repentinamente um brilho saiu de sua mão,
projetando um raio de luz que varou o peito de Andhy.
- Não! - Nina correu ao encontro de Andhy, então o estranho virou o
braço em sua direção, sua mão brilhou uma vez mais.
- Ah!
- Nina acordou.
- Ai! Foi um sonho. Que coisa. Parecia tão real. Ai, minha cabeça está
doendo.
Seu telefone tocou, dando um leve susto a quem já estava apavorada.
- Alou! - atendeu Nina tentado se acalmar.
- Alou, Nina? Bom dia! Eu tô ligando para saber se você vai comigo
para a faculdade.
- Ah... Faculdade... Ah é, hoje tem aula. Eu vou.
- Que foi, que voz é essa Nina?
- É que eu estava dormindo.
- Ah desculpa se te acordei.
- Ah não, não foi você que me acordou, foi meu sonho.
- Foi um sonho ruim?
- Mais ou menos. Bom depois eu te conto.
- Tá bom. Estarei lá em meia hora. Tá bom?
- Tudo bem. Tchau!
Nina saiu da cama ainda aturdida com o sonho. Era como se ela tivesse a certeza
de que aquilo acontecera mesmo. Mas seria possível alguém disparar raios de luz
pelas mãos? Mas a verdade era que ela tentava convencer-se que não tinha
acontecido nada, porque se fosse verdade Andhy poderia estar morto. Essa era uma
idéia que não podia aceitar. Ao pensar nessa possibilidade seu coração
contraiu-se. Suspirou profundamente. Tentou afastar esses pensamentos para
longe, no entanto quanto mais tentava achar algo que lhe distraísse, mais as
imagens do sonho vinham em sua mente.
Tomou um banho bem gelado
- coisa que nunca fazia, Nina só tomava
banho quente, até mesmo no verão
- para ver se espantava aquele tormento
de sua cabeça. Não teve muito êxito.
Quando terminou de arrumar-se, Karla chegou buzinando em seu portão.
- Já vou Karla.
...
Nina Hackmam, dezenove anos, cursava a faculdade de Belas Artes juntamente com
Karla Köhler, Adriana Holger, Flávia Schüren e Andhy Crawlley. Eles eram seus
melhores amigos desde o primeiro dia em que se conheceram. Estavam, agora no
sexto semestre, e já haviam passado por muitas coisas juntos.
E agora ela pressentia que mais algumas coisas teriam que enfrentar juntos, mas
algo lhe dizia que não seria tão simples quanto complicados trabalhos de
história da arte ou alguma desavença com algum professor. Sentiu uma pontada de
medo em seu peito.
Deu um profundo suspiro enquanto passava pela porta de casa, foi vagarosamente
em direção ao carro de Karla
- esse trajeto lhe pareceu durar mais do
que o provável,
- o vento soprou balançando os longos, finos e sedosos fios de seu
cabelo. Um calafrio subiu pelo seu corpo, as folhas secas que voavam à sua
frente pareciam vultos sinistros de rostos desfigurados, e quando ela parava
para encará-los via que eram apenas folhas. Girava de um lado para o outro e
sentia que tudo estava sombrio demais. Em um ato incontrolado do corpo, esticou
o braço, sentiu a maçaneta do carro. Abriu a porta e entrou. Sentiu-se melhor ao
estar do lado da amiga.
- Bom dia!
- Bom dia Karla!
- Falou ainda meio aturdida pelo bizarro
devaneio que tivera antes de entrar.
- O que houve, Nina? Parece tão abatida.
- Ah. Deve ter sido o meu sonho.
- E falando em sonho, quando você me contou que tinha sonhado eu me
lembrei. Também tive um sonho. E você estava nele.
Nina olhou-a espantada. Ela também sonhara com a amiga. Mas não poderia ser o
mesmo sonho.
- Que foi Nina? Por que está me olhando assim.
- Como foi seu sonho Karla?
- Eu sonhei que estávamos todos no jardim botânico. Aí Andhy levantou,
foi até você e te beijou. Então ele afastou-se e virou névoa, e...
- Aí você correu em direção a onde a névoa dirigia-se e o encontrou
sobre um lago em uma clareira juntamente com um homem com um manto preto, e você
não conseguia ver o rosto dele. Ele atacou Andhy, e antes que você pudesse fazer
qualquer coisa ele vai te atacar, então você acordou.
-
Completa rapidamente Nina ainda espantada com o fato de a amiga ter tido o mesmo
sonho que ela. Então um pensamento passou-lhe pela cabeça: “Será e que Adriana e
Flávia também tiveram o mesmo sonho?”.
- Como você sabe meu sonho, Nina? Não me diga que você também...
- Sim, eu tive o mesmo sonho que você.
- Ah. Acabei de me lembrar. A Flávia me ligou pedindo para você e eu
encontrá-la na biblioteca da faculdade.
- Informou Karla.
As duas ficaram pensando qual seria o motivo pelo qual Flávia pediria para elas
encontrarem-na tão cedo. Esqueceram naquele momento a coincidência do sonho
entre as duas.
Assim que chegaram na faculdade elas foram direto para a biblioteca. Ali
encontraram Flávia. Ela estava sozinha lendo um jornal. Nina sentou-se ao seu
lado e Karla sentou a sua frente. Quando elas sentam, Flávia olhou seu relógio.
- Bom, só falta a Adriana. Mas acho que já podemos começar.
-
Disse Flávia dobrando o jornal em quatro, deixando a primeira página com a foto
da manchete para frente. Nessa foto, que era dividida no meio, mostrava do lado
direito o jardim botânico com metade do seu território destruído, e do lado
esquerdo mostrava a fábrica onde foi realizado o show, toda em destroços.
- Vejam isto. Vocês lembram disso?
- É o meu sonho...
- Considera Nina surpresa.
- Não acredito. Isso foi um sonho.
-
Declara Karla.
- Tem razão Karla. Foi um sonho. Também. Mas na verdade o sonho que
nós tivemos, sim eu também sonhei, é apenas lembrança do que aconteceu na
realidade. Eu só não entendo o que aconteceu depois do clarão que vimos.
-
Flávia olhou para suas amigas, e sorriu condescendente.
- Não gente, isso não é impossível.
Todas nós tivemos o mesmo sonho, e nosso sonho está aqui no jornal.
- Nosso sonho está aonde?
- Nesse instante chegou Adriana.
- Ah, finalmente você chegou. Agora podemos esclarecer as coisas.
-
Fala Flávia em tom de saudação.
- Hei Dri, você também sonhou com isso?
-
Karla pergunta mostrando-lhe o jornal com o braço esticado para cima, para que
ela o visse.
- É, eu sonhei com isso sim. Mais como é que...
- Senta aí. Temos muito que conversar.
-
Diz Flávia a Adriana, que automaticamente senta sem questionar, mas ainda com
cara de espanto.
- Bem Flávia, se você tem uma explicação; por favor, explique.
-
Pede Karla olhando a amiga nos olhos, apoiando os cotovelos na mesa e a cabeça
sobre as mãos com os dedos entre laçados.
- Pessoal, o que nós sonhamos, não foi um sonho. Foi parte da
lembrança do passado. Isso já havia acontecido. Mas parece que algo apagou nossa
memória parcialmente. Hoje quando acordei, a primeira coisa que fiz foi
telefonar pro Andhy. Entretanto, a mãe dele informou-me que ele ainda não tinha
voltado. Vocês já tentaram falar com ele hoje?
- Não. Mas o que isso tem a ver?
- Pergunta Nina.
- Oras, você não se lembra? No final do sonho, tudo dava a entender
que ele morria ou, desaparecia junto com o clarão. Estou errada? Então se ele
estiver bem, poderemos até considerar como uma das mais incríveis coincidências
que já vimos. Do contrario, há alguma coisa muitíssimo estranha acontecendo
aqui. E não sei quanto a vocês, mas eu vou descobrir o que é.
- Você acha que ele morreu?
- Perguntou Adriana encarando Flávia.
- Não. Se tivesse morrido haveria um corpo. Como foram encontrados
muitos lá no jardim hoje. E alguma coisa me diz que ele não morreu.
Nina nesse momento sentiu em seu peito uma sensação de latejo no coração, como
se dentro dela algo vibrasse. Sentiu que aquilo lhe dava a certeza de que Flávia
acertava em sua dedução.
- Eu também acho.
-
Disse ela cabisbaixa. Suas amigas, que sentiram um tom de tristeza, olharam-na.
Karla segurou em sua mão, e lhe sorriu condescendente.
- Nós iremos achá-lo. Eu também tenho certeza que ele está vivo.
- Diz
Karla olhando em volta da mesa, ainda segurando a mão de Nina.
- Bem, se isso tudo foi verdade mesmo. Então o cara cabeludo de sobre
tudo, também existe. E isso, eu acho, significa problema. Não?
-
Retruca Adriana olhando para o teto pensativa.
- É, você tem razão. Talvez ele possa ter idéia de onde Andhy possa
estar. Portanto, achá-lo também seria útil. Apesar de, provavelmente, perigoso.
- Concorda Flávia.
- Só uma pergunta Flávia.
- Nina levantou a cabeça e olhou para a
amiga
- O
que foi aquelas luzes todas que saía da mão dele? E como Andhy flutuava em pé
sobre o lago? Eu me lembro, agora, de ter entrado na frente de um desses raios
luminosos que aquele estranho lançava, e não me machucou, apesar de poder
destruir metade dum jardim com novecentos quilômetros quadrado.
- É verdade.
- Concordaram Karla e Adriana juntas.
- Vocês não perceberam, ainda? Nós não somos como as outras pessoas,
gente. Não sei explicar, ou nomear corretamente, mas diria que somos como
paranormais. Só que num nível mais elevado. E como se tivéssemos dons mágicos.
- Como bruxas?
- Perguntou Adriana com certa animação.
- Não. Bruxaria não produz efeitos desse tipo. Na verdade eu não sei
bem como funciona, mas olhem.
- Flávia levantou um livro que estava na
mesa e o pôs de pé tampando sua mão para que a bibliotecária não a visse. Ela
abriu sua palma, alguns segundos depois, acendeu uma pequena chama sobre ela.
Suas amigas abafam o som de espanto em suas gargantas enquanto olharam
abobalhadas para a chama que trepidava levemente na mão de Flávia.
Flávia fechou a mão apagando o foguinho.
-
Viram?
- Isso não te queima.
- Perguntaram as três.
- Não. Eu que produzo o efeito, não sofro nada.
- Hei, como se faz? Eu também quero fazer isso.
- Bom, Dri, eu não sei bem, mas eu apenas penso na chama e desejo do
fundo da minha alma que ela exista.
- Vou tentar.
- Decide Adriana.
Ela estende a mão ao lado do livro, ainda em pé, para escondê-la da
bibliotecária. Adriana tenta se concentrar, puxando do âmago do seu ser, o que
ela imaginava ser a energia que propiciaria a causar o efeito que ela desejava.
Mesmo sem saber o que. Suas amigas em volta olhavam-na ansiosas em ver fogo,
gelo ou qualquer coisa impressionante que pudesse acontecer.
Um minuto havia se passado e nada parecia ter acontecido. Elas entre olharam-se.
- Bem Flávia, costuma demorar muito para acontecer algo?
-
Perguntou Karla desviando sua atenção para Flávia.
- Bom, depende. Se já tiver alguma experiência acho que ajuda.
- Então deve ser isso.
- Concluiu Adriana um pouco decepcionada
consigo mesma.
- Gente. Acho melhor irmos andando que a aula de perspectiva já
começou.
- Alerta Nina.
- É mesmo, vamos. Não posso perder aula desse cara não. Se não vou me
ferrar.
Pegaram suas coisas e se retiram da biblioteca. Saíram, mas não perceberam.
Passaram pela bibliotecária, que olhava para o lado oposto ao da porta, onde sua
mão esbarrava num copo de café que era derramado, ao virar a página de um livro
que folheava. O liquido negro se projetava no ar, ela soltava um grito mudo, com
a boca escancarada.
Enquanto as quatro passavam pela bibliotecária, não se deram conta de que o café
não caía, continuava parado no ar. A mão dela parara no momento em que tocou no
copo. O tempo havia parado completamente.
Adriana foi a última a sair da biblioteca. Fechou a porta sem olhar para trás.
Entrementes, o copo rolou pelo balcão e caiu, um pouco depois do café ter se
espalhado pelo chão. As quatro puderam ouvir o grito vindo de dentro da
biblioteca.
- O que será que foi isso?
- Pergunta Adriana.
- Sei lá. Deve estar pirando.
- Comenta Karla. Mas elas nunca
chegaram, a saber, o motivo do grito.
Pegaram o elevador desceram três andares e foram para a sala de perspectiva, que
ficava no sexto andar. Chegaram quinze minutos atrasadas. O professor não
ligava, pois já estava acostumado com os constantes atrasos dos membros do
grupinho, que era Karla, Flávia, Adriana, Nina e Andhy. Então percebeu que
faltava um do grupo que sempre estava junto.
- Onde está o Andhy?
- Pergunta o professor espantando-se.
- Ele está doente. Não vai poder vir durante algum tempo.
-
Mentiu Flávia. E as amigas olham-na aliviadas dela ter pensado em algo tão
rápido.
- É mesmo? Deve ser gripe, não é? Está tendo uma epidemia.
- É sim. Mas logo ele se recupera.
-
Confirma Flávia.