REGISTRO NA FUNDAÇÃO BIBLIOTECA NACIONAL: Nº 397481
O ENCONTRO DOS TRÊS

Domingo, 3 de dezembro de 2000.

Passava das seis da tarde, Scott lia na biblioteca de sua faculdade um livro de mitologia egípcia, assunto do qual ele mais se interessava. Súbito, a luz apagou. Scott supôs que havia ocorrido algum problema com o gerador da universidade, em que cursava a faculdade de história antiga e medieval. Em seu campus também se encontrava a Escola de Belas Artes e a Escola de Música. Decidiu terminar sua leitura em casa, registrou seu pedido de empréstimo com a bibliotecária e saiu.

Vinha descendo a escadaria de entrada da biblioteca, que fora construído no século XIX no estilo românico. Avistou um carro esporte conversível vindo em sua direção. Supôs ser o carro de um colega de classe. Esse seu colega era mais alto que ele e, por resultado de muita malhação, também mais forte, pois Scott media um metro e setenta e seis de altura e uns dois palmos de largura, enquanto o outro media por volta de um e oitenta e uns cinco palmos de largura. O carro parou frente à subida da escadaria ao mesmo instante que Scott atingia a calçada. No carro encontrava-se além de Jonny, seu colega de classe, um grupinho que vivia perturbando ou caçoando daqueles os quais julgavam estranhos. E Scott, com seus negros cabelos lisos que vinha até o pescoço e cobria boa parte da face esquerda, usava óculos redondos e grandes sobre olhos inexpressíveis. Vestia-se todo de preto, sempre com uma blusa de mangas longas e gola alta, era para eles o exemplo da esquisitice. Scott andava sempre com as mãos no bolso, com o rosto sem exprimir qualquer sentimento, não falava muito, normalmente só para dar alguma resposta - que era impressionante ter sempre uma para tudo.

Jonny saltou do carro pousando ao lado de Scott.         

- Olha o nerdizinho da escola aí. Não quer ir ao show com a gente? Oh, claro que não, você nem consegue chegar perto de garotas. Só consegue encarar livro de mitologia. - Os que o acompanhava deram boas risadas de deboche.

- Hum é estranho como os homossexuais se atraem. Vocês só andam juntos, vai ver sentem atração sexual um pelo outro. - Disse Scott sem expressar alteração alguma na voz e no comportamento - ainda tinha as mãos nos bolsos.

- O que? - Alterou-se Jonny - Vou te matar seu nerdizinho escroto. - Jonny, furioso, pegou Scott pela gola e aproximou-o de seu rosto. Os outros saíram do carro e o seguraram, forçaram-no a largar Scott. Um deles disse:

- Calma Jonny, se você fizer qualquer coisa com ele aqui, vai pegar pra você, cara.

- Humph! É! Cê tem razão. Escuta aqui, ô qüatrolho, se você é macho mesmo eu quero ver você ir ao show.

- O.K. - Concordou Scott inexpressivo.

Os arruaceiros entraram no carro e saíram. Scott foi para casa se preparar para ir ao tal show, que ele imaginou não ser perda de tempo já que uma banda que ele gostava iria se apresentar. Essa banda era Hallowmas, uma banda que tocava heavy metal, era bastante conhecida pelas localidades.

Íhvan estava para praticar algo raro. Aparecer em público. Íhvan morava numa casa antiga no fim da estrada, próxima a um cemitério, onde praticava rituais de sacrifícios de animais em busca de força vital. Só podia ser visto pelas ruas da cidade tarde da noite, era quase impossível ser visto sob a luz do sol. Talvez isso explicasse a cor branca de sua pele, mas não era um branco que qualquer albino aparenta, parecia que ele a pintava para ter tal tonalidade. Porém sua namorada não achava isso possível, pois sempre que o tocava sentia que sua pele era natural e não passava nada nela. Qualquer um que visse Íhvan despreparado o julgaria um vampiro, e até que parecia, todo vestido de preto, com aquela cara branca e olhos azuis claro, o corpo esguio, tal opinião era compartilhada por sua namorada com suas amigas.

Sua namorada, Vanessa Kissinger, era uns três palmos mais baixos que Íhvan, tinha cabelos negros e longos assim como o dele. Tinha também, o hábito de vestir roupa preta. Ela olhava Íhvan e entendia porque sempre lhe perguntavam o que vira nele, mas ela sabia que ele a amava. Talvez fosse o único ser na face do planeta do qual ele gostava. Ela também o amava e não entendia muito bem o porque. Naquele momento ele só estava perambulando pela rua pôr sua causa. Vanessa o interpretava como feiticeiro, afinal, regularmente praticava ritos de magia negra. No entanto compreendia-o, pois ela buscava também alguma verdade na pratica da bruxaria.

Ela havia pedido para que a levasse ao show que aconteceria à noite. Íhvan por um momento hesitou ao pensar em estar no meio de uma multidão, mas não podia dizer não a Vanessa. Ela sabia disso e não gostava da idéia de forçá-lo a fazer algo que não quisesse, mas ele era muito anti-social, e tentava aos poucos mudar seus hábitos. Os dois moravam a alguns quarteirões do local do show.

Scott já tinha tomado banho e trocado de roupa - se alguém o visse diria que era a mesma - pegou as chaves do carro do pai e saiu para o show. Scott morava só. Seus pais viviam viajando, e desde que Scott entrara na faculdade que eles não passavam um dia sequer em casa. Scott, porém não se importava com o fato de não ver os pais por pelo menos uns dois anos, afinal tinha paz e liberdade. Quando saiu, já entardecia, o céu apresentava tonalidades alaranjadas próximas à linha do horizonte, enquanto que nuvens cinza cobriam o outro extremo do céu.  - Será que vai chover? - Pensou.

Marcus Engels estava sentado no bar bebericando uma dose de vodka, sua bebida preferida, enquanto assistia a primeira banda do show apresentando-se. Logo seria sua vez de apresentar-se, ele era guitarrista e vocalista da banda Hallowmas, que já possuía uma legião de fãs. Marcus era o estereotipo de um metaleiro, com seus compridos cabelos ruivos que chegava até a cintura, olhos azuis, com um metro e oitenta e dois de altura, e suas vestes de couro negro compunham o figurino perfeito para um “metal-star”. Não tinha um humor muito bom, era o que os membros de sua banda diziam. Engels nunca se importou em gostar de alguém, ele só aproximava-se de determinada pessoa quando lhe era conveniente. Razão pela qual ele só dividia o mesmo espaço que o resto da banda para ensaiar, e Marcus achava-os músicos competentes, por isso tolerava-os.

Chegava a hora de apresentar-se. Engels dirigiu-se ao camarim para juntar-se ao resto da banda.

 

Scott chegava no momento em que uma banda que ele não conhecia, descia do palco. Um velho cabeludo grisalho entrou no palco e anunciou: “vamos assistir agora a banda Hallowmas”.

Engels e sua banda, composta por mais um guitarrista além dele, um baixista e um baterista, subiu ao palco. A galera foi ao delírio. Engels sentia a adrenalina que o urro dos făs expressava. Chegava ao êxtase quando fazia um solo ou produzia um agudo. Scott impressionava-se com o talento da banda. Não era à toa que tinham tantos fãs.

Lá pela quarta música chegaram Íhvan e Vanessa. “Sonho doloroso” - ouviram Engels gritando. Íhvan adorava essa música. Ela falava sobre um feiticeiro que torturava as pessoas durante seus rituais de magia negra, e que no fim teve que usar o próprio coração para livrar-se da punição das almas que torturara.

O show de Marcus durou uma hora. Depois da banda Hallowmas subiu no palco uma banda chamada Darknight. Entrementes veio entrando no salão - o show estava sendo realizado em uma antiga metalúrgica - um grupo de motoqueiros, o ultimo que entrou rebocava um caixão negro ornamentado de crânios pelas laterais. Esse último tirou o capacete, então Marcus, que descera do palco e agora encontrava-se próximo ao bar, viu que era uma mulher. Ela desceu da Harley, foi ao caixão e abriu-o, do caixão saiu um homem albino, com cabelos curto e pintado na cor lilás, era magro e pouco mais baixo que Engels. Tinha um Pierce no nariz e um olhar penetrante.     

Scott e Marcus acompanharam o homem com o olhar. Ele subiu ao palco seguido pelos outros motoqueiros. O vocalista do Darknight fitou-o intrigado, então parou de cantar. O restante da banda parou de tocar, e todo o Darknight desceu do palco.

Desconfiado Marcus levantou e dirigiu-se ao líder do Darknight e perguntou o que havia acontecido enquanto a banda descia, e obteve como resposta um: “Se liga nisso não cara”. Conformou-se em observar o que viria depois. Aqueles que haviam subido ao palco pegaram os instrumentos que lá jaziam sobre o assoalho do palco de madeira improvisado, e deram inicio ao seu show. Eles não se apresentaram como nada, apenas tocavam. O homem de cabelo lilás cantava, e sua voz parecia hipnotizar a todos ali. - Com poucas exceções - A multidão começou a criar tumultuo entre si. Uma muvuca que se agredia, foi aumentando gradativamente a confusão.

Scott percebeu que algo ali estava errado. Avistou Jonny, seu colega de classe, e antes que ele entrasse na muvuca Scott aproximou-se de frente para ele e fez um movimento com a mão aberta frente ao seu rosto de cima para baixo, e o fitou - às costas do colega tinha um homem pelo qual a multidão contornava, porém não o tocava, e esse homem pálido, de cabelos pretos e sobretudo, olhava fixamente para o que cantava no palco, este também olhava fixo para o outro. Parecia que lutavam através do olhar. - “Abra caminho para eu ir até lá”. Jonny deu as costas a Scott e adentrou no tumulto abrindo caminho - o que para ele, com aquele corpanzil, era fácil - chutando, socando, dando cabeçadas, Scott logo atrás. No bar Engels observava que o cantor com o cabelo lilás olhava aturdido, alguém no meio da agitação. No outro extremo do bar Íhvan e Vanessa observavam o mesmo.

Quando Scott ia chegando perto, com Jonny abrindo o caminho, daquele estranho, ele deixou seu estado inerte de observação, deu as costas e saiu caminhando. A multidão abria espaço para ele passar. Caminhou até a parede oposta ao palco e, ao contrario do que Scott pensava, ele não parou. Continuou em direção a parede até atravessá-la.

Naquele momento o vocalista no palco gritou no microfone:

- Maldito. Não fuja.

Pareceu a Scott que sua voz produzira laminas invisíveis. Na trajetória entre o cantor e o outro que desaparecera, passou uma rajada de ondas acústicas, só que, aqueles que estavam na reta foram mutilados - por pouco não atingiu Jonny - explodindo na parede. Causou um buraco que dava para ver o estacionamento dali. Scott constatou que por pouco não atingiu o porscher de seu pai. “Que sorte” - pensou.

Marcus, Íhvan e Vanessa viram apenas jatos de sangue. Marcus deu um salto da cadeira e o palco subindo correndo. Foi até o vocalista e pegou-o pela gola da jaqueta.

- Imbecil o que você pensa que esta fazendo?

Os olhos do homem de cabelo lilás brilharam. - LARGUE-ME! - Falou ele. Scott viu Marcus ser projetado para fora do palco, sem que o outro fizesse movimento qualquer, em sua direção. Porém Marcus não se esborrachou no chão. Tinha pairado no ar, e aterrizou de pé.

Scott pressentia que aquele homem seria seu oponente também. Prostrou-se ao chão a procura de algo que servisse de arma. Achou alguns pedaços de concreto remanescente da parede destruída. Pegou um pedaço do tamanho de sua mão, e atirou. O pedaço de concreto foi como um projétil de revolver. Zuniu no ar traçando uma trajetória até o estranho no palco. O projétil parou próximo à sua fronte, então se pulverizou.

Jackie percebeu que aqueles dois rapazes que o agredira não eram nem um pouco normais. No entanto ele, Jackie Lancastte, tinha a certeza de que ele era mais forte que os dois. Eles tinham habilidades incríveis, mas não comparadas com as dele. Só sentiu receio em relação ao seu poder quando seu olhar encontrou com o do homem que havia atravessado a parede. Naquele momento Jackie sentira como se a aura do estanho crescesse esmagadoramente, aquilo por breves estantes, provocou nele um terror insano. E subitamente, passou. Toda a força esmagadora sumira, e Jackie não se sentia mais ameaçado. Sentiu-se forte de novo. Forte o suficiente para derrotar Marcus e Scott.

Derrepente Jackie sai do seu devaneio. Viu algo girando muito rapidamente em sua direção. Marcus havia pegado um pedaço de ferro no chão - o que era comum numa metalúrgica abandonada.- O pedaço de ferro tomou a forma de um bumerangue, as laterais eram muito afiadas, quando Marcus lançou-o, foi direto para Jackie, mas no caminho cortou um penteado moicano azul violáceo de alguém que estava no meio da confusão. - Que parecia que nunca ai acabar - Faltavam alguns centímetros para decepar a cabeça de Jackie. Marcus espantou-se ao ver seu bumerangue improvisado sumir no momento que tocava a jugular de Jackie, um filete de sangue brotava em seu pescoço.

Marcus perguntava-se como poderia ter feito aquilo. Não podia simplesmente desintegrar algo daquele modo ou, pelo menos Engels achava que não. Olhou em volta perguntou-se se Jackie poderia mandar sua própria arma voltar contra si.

No entanto não demorou a descobrir para onde ira seu bumerangue.

Íhvan, que ainda estava próximo ao bar, de onde todo aquele rebuliço passava longe, estava parado em pé frente à Vanessa para protegê-la. - Ele seria capaz de matar, e se fosse por Vanessa, poderia fazer até pior que isso.

Súbito, um objeto metálico aparece a poucos palmos do seu rosto. Não teve tempo para pensar. Sua reação foi fechar os olhos e aceitar a chegada de sua morte. Porém ela não veio. Ouviu a voz de Vanessa gritando - ÍHVAN CUIDADO - e ela puxando-o para o chão. Ouviram o som das prateleiras do bar quebrando e as garrafas espatifando-se. Gotas de sangue voaram em seus rostos. Íhvan passando a mão para limpa o sangue que o atingira, virou para constatar que o sangue pertencia ao barman que estava hipnotizado, e ficara parado ali atrás do bar a um bom tempo. O bumerangue que fora criado por Marcus e desviado para Íhvan por Jackie, decepou a cabeça do barman. “Esse seria meu destino. Se não fosse por Vanessa”.- Pensou Íhvan.

Mas quando passou por sua cabeça que sua namorada também poderia ter morrido, ficou tomado de fúria. Pulou por cima do balcão, foi até as prateleiras destruídas procurando o bumerangue. Achou-o encravado na parede com uma de suas asas enterrada até o meio.

Íhvan puxou-o, cedeu com facilidade. Íhvan mirou em Jackie e lançou-o - Íhvan era mestre no manejo das armas-brancas. - Não tinha muitas lembranças de seus pais, nem sabia se viviam ou já haviam morrido. Mas lembrava que seu pai caçava e ensinou-lhe a manejar espadas, lanças, bumerangues e adagas. O estranho é que ele nunca se perguntara o que poderia ter acontecido com seus pais. Certo dia eles pareciam ter sumido, mas ele sabia que eles existiam. Tinham que existir, se não como ele poderia ter nascido? A verdade era que pouco importava se existiam ou existiram, a única pessoa que importava para ele era Vanessa Kissinger, sua namorada. - O bumerangue projetou-se em uma curva até Jackie. Mas desta vez ele estava preparado. Com um gesto de mão desviou-o para Marcus. Engels por sua vez o desmanchou ao aproximar-se dele. Entendeu que um ataque direto não seria muito eficaz contra Jackie.

Engels tentava imaginar o que poderia fazer contra seu oponente, mas não fazia idéia de como agir. Então percebeu que Jackie contorcia o rosto, fazendo caretas horríveis, botando as mãos na cabeça apertando-a, seu corpo dobrou para frente e para trás violentamente. - Enquanto essa batalha acontecia, toda a banda de Jackie continuava tocando freneticamente. - Pareceu a Engels que Jackie sentia que sua cabeça ia explodir. Marcus olhou, com uma idéia que passara por sua cabeça repentinamente. Procurou pela multidão, logo seu olhar avistou Scott. Scott estava com os olhos fechados, respirava lentamente, parecia que estava dormindo em pé. Marcus então concluiu que estava certo. Scott estava tentando dominar a mente de Jackie. Sentiu-se, por um instante, aliviado por Scott não estar contra ele.

Não perdendo tempo, usou todos os pequenos pedaços da parede derrubada para moldar estacas de concreto. Eram dezenas de estacas. Lançou todas contra Jackie.

Jackie distraído tentando livrar-se do domínio mental de Scott, sentiu uma das estacas atravessar sua barriga. Sua cabeça parecia um campo de batalha, vários sons chocavam-se dentro de sua mente. Viu vários mísseis a sua frente. Alguma criatura devorava seu estômago. Aquele estranho que havia fugido dele atravessando a parede, agora estava de volta parado bem na sua frente e dizia: “Você acha que é forte. Pois saiba que eu me retirei porque você não vale meus esforços. Há quem faça isso com tanta facilidade quanto eu”.

- MALDITO. - Gritou Jackie. Rolou para o lado evitando que os mísseis o acertasse. Passou a mão pelo abdome, procurando o que provocava aquela dor. Tocou a estaca, levantou a mão ao seu rosto, viu-a manchada do deu próprio sangue. O ódio que tomou conta do seu ser foi crescendo e apoderando-se de sua sanidade.

Engels viu seu corpo ser tomado pôr um brilho azulado. Então percebeu o que Jackie iria fazer e ele não poderia fazer nada para impedir. Olhou para Scott, que se encontrava a poucos metros dele.

- Vamos sair daqui cara, ele vai mandar tudo isto aqui pelos ares. - Falou Engels para Scott, que consentiu com a cabeça e saiu logo atrás de Marcus. Foram entre esbarrões e tropeços em meio à multidão para sair o mais rápido possível.

Íhvan percebeu que Jackie acumulava energia em um ponto especifico do corpo. E se a liberasse o efeito seria como a de uma fissão nuclear. Toda a fabrica seria destruída. Voltou-se para Vanessa puxando-a pelo braço, dirigiu-se para a entrada.

Íhvan e Vanessa que estava mais próximo da entrada saíram primeiros que Scott e Engels.

Atrás deles ouviu-se um ensurdecedor “CABUM” seguido de um estrondo que estremeceu todo solo o aos seus pés. A torrente cinética provocada pela explosão atirou todos os quatros longe. Marcus, no entanto, impediu que todos se machucassem.

A poeira subiu provocando uma névoa espessa à frente deles. Scott, Marcus e Vanessa sentiram o vento soprar afastando o pueril, permitindo enxergar-lhes uns aos outros, então viram que Íhvan de pé com o braço esticado para frente era quem produzia o vento.

Vanessa, como se não tivesse prestado atenção ou talvez não tenha entendido o que Íhvan fazia,  pulou em seus braços para um abraço. Marcus limpou as gotas de suor em seu rosto, e suspirou aliviado. Scott estava parado virado para a fábrica, que agora era uma pilha de escombros.

- Mas como? - Sussurrou Scott. Ouviu-se um barulho em meio aos escombros.

Marcus parou de limpar o suor em sua testa. Olhou pelos cantos dos olhos para o monte de entulhos ceticamente.

Vanessa parou de abraçar Íhvan e olhou para trás. Íhvan fixou seu olhar nos destroços.

Em meio à fumaça eles vêem uma silhueta humana. O que os levou a concluir que seu inimigo não havia sido derrotado.

Jackie caminhava para fora dos escombros lentamente. Seus inimigos podiam ver que não sofrera um arranhão sequer, e a ferida feita pela estaca de Marcus tinha se fechado. Podia-se ver pela expressão em seu olhar o quanto estava furioso. Entretanto Marcus, Scott e Íhvan também não estavam tão pacientes.

Marcus que ainda encontrava-se de joelhos no chão, socou-o, e para o espanto de Vanessa seu punho afundou no asfalto. Feito isso, novamente os destroços, aos pés de Jackie, transformaram-se em varias estacas. Jackie saltou para o ar. Vanessa impressionou-se outra vez, o estranho havia saltado a mais de quarenta metros de altura. As estacas seguiram-no, Jackie lá no alto, estendeu sua mão esquerda em direção das estacas. A primeira que chegou até ele sumiu, e na medida em que iam chegando todas sumiam, como se houvesse um buraco invisível entre ele e as estacas. Quando todas tinham sumido ele desceu bem devagar.

Engels esperou que chegasse bem perto do solo. Ergueu sua mão, que ainda estava dentro do buraco que tinha feito com o soco, esticou e abriu-a, depois foi fechando lentamente. Vanessa não conseguia acreditar no efeito causado por aquele gesto, parte do asfalto abaixo de Jackie se deslocou do chão causando tremores que a fez perder o equilíbrio e cair de joelhos. Jackie olhou em sua volta, mas antes que pudesse afastar-se o fragmento fechou em torno de si. Começou a se comprimir, imensos pedaços de concreto voaram juntando-se a esfera de asfalto. Foram se chocando causando estrondos ensurdecedores. Quando terminou havia uma esfera de entulho de uns vinte metros de diâmetro flutuando a uns cinco metros de altura. Marcus deixou-a cair, o que fez o solo estremecer, fazendo Vanessa cair outra vez quando tentava se levantar. Marcus estava certo da vitória. Mas por pouco tempo.

Sentiu ser chutado na face. Jackie estava parado na sua frente, e olhava para Marcus que limpava o fio de sangue que escorria do nariz.

Íhvan colocou Vanessa de lado, puxou do sobre-tudo uma adaga prateada de meio metro de cumprimento e três laminas, uma oposta à outra, e lançou-a em Jackie. Antes que a adaga o atingisse ele estendeu o braço e desviou-a de volta a Íhvan, que a pegou pelo cabo com facilidade e nem sequer piscou, enquanto Vanessa tampava os olhos com as duas mãos para não ver o namorado ser perfurado. Antes de qualquer reação de Íhvan ou Marcus, Jackie saltou para trás, e parou a quinze metros de distancia. De lá ele conjurou no ar, centenas de pedregulhos do tamanho de Marcus, que era o maior entre eles.

Íhvan, em um ato de desespero, empurrou Vanessa para longe dali, enquanto os pedregulhos desciam na direção deles. Scott olhava para o alto, mas não pensou em fugir, seria inútil tinha que derrotar de uma vez por todas seu oponente. O problema era como?

- Droga. Não posso fazer nada, estou sem energia. -  Comentou Marcus, furioso, olhando para o alto.

Íhvan ao ouvir o comentário de Engels olhou para ele, percebeu que ele poderia fazer algo em relação aos pedregulhos.

Uma luz azulada e bruxuleante começou a emanar do corpo de Íhvan. Então Marcus sentiu suas energias voltarem. Não parou para perguntar se fora Íhvan que tinha feito aquilo. Ocupou-se de desintegrar os pedregulhos que os esmagariam em poucos estantes. Os pedregulhos viraram pó com um gesto de braço de Marcus. O vento soprou subitamente e afastou toda a poeira antes que chegasse a eles.

Jackie estupefato perdeu momentaneamente a ação. Scott aproveitou sua distração, abaixou para pegar qualquer coisa que lhe servisse de arma. Suas mãos tocaram num bom pedaço de concreto. Scott pegou-o, concentrou toda sua energia naquele objeto e atirou-o em Jackie que, quando se deu conta a pedra já havia atingido sua testa. Jackie perdeu o equilíbrio e caiu, havia um corte em sua testa. Porém ele não estava derrotado.

Jackie tentou se levantar, mas Scott queria que aquilo terminasse. Ele tentou dominar a mente de Jackie novamente. Jackie caiu de joelhos. Marcus viu sua última oportunidade para a última ação, pois tinha usado suas forças finais para dizimar os pedregulhos.

Avistou o maior pedaço de concreto que pode, pegou-o, olhou para Jackie tentando livrar-se do domínio de Scott. Correu com a pedra, segurando-a com os dois braços, em sua direção.

- Morra maldito! - Marcus acertou-lhe outro golpe na testa. Jackie cai com um baque surdo no chão. Seu sangue lentamente criou uma poça vermelha escuro no chão. Desta vez estava morto.

Marcus arfava lentamente. Olhou para os escombros e lembrou-se de que agora não tinha mais banda, pois todos os componentes estavam dentro da fabrica. Mas por algum motivo aquilo não lhe importava. Só pensou que teria que comprar outra guitarra. Virou-se para Íhvan.

- Obrigado! - Disse sem olhar para Íhvan.

- De nada! - Disse Íhvan também sem olhar.

Scott virou e retirou-se sem dizer nada. Então Engels também se retirou, indo até sua Harley. Scott pegou o porscher de seu pai e partiu. Íhvan e Vanessa foram pegar um taxi.

No taxi a caminho de sua casa, Vanessa, que ficou calada durante a viagem de volta a casa, encarou Íhvan ainda incrédula.

- O que foi tudo aquilo? Quem são eles?... O que é você? – Ela perguntou com uma sensação de que ao fazê-lo acordaria de um terrível pesadelo.

- Calma Vanessa amanhã eu lhe explico. Acho que agora você precisa descansar. - Ela não quis insistir, pois realmente estava muito cansada, mais que isso, abalada emocionalmente – não acreditava que tinha sido tudo verdade. Ela aparentemente estava calma, mas por dentro o desespero a consumia. Mas ficou decidida em descobrir tudo sobre o que tinha acontecido.

Qual sua opinião?