REGISTRO NA FUNDAÇÃO BIBLIOTECA NACIONAL: Nº 397481
Capítulo I - A REVELAÇÃO

Domingo, 3 de dezembro de 2000.

Primeiro dia.

Cinco amigos haviam marcado para se encontrarem no jardim botânico da cidade. Eles cursavam a escola de belas artes, habilitação em pintura. O motivo pelo qual estavam ali era um trabalho de campo para a matéria de desenho artístico no qual consistia escolher paisagens para reproduzi-las. Naquele momento eles estavam na lanchonete que ficava dentro dos domínios do jardim e esperavam a hora marcada para se encontrarem com o professor e o resto da turma. Enquanto a hora marcada não chegava, eles lanchavam e conversavam descontraidamente. Alheios aos acontecimentos do cosmo, que em constante movimento estava preste a tomar um rumo que o levaria a mudanças radicais.

- Ah, o meu auto-retrato está longe de se parecer comigo! – disse Karla com desanimo - era a mais velha do grupo, aparentando ter uns vinte e cinco anos. Era alegre e decidida, de baixa estatura (devia medir pelo menos um metro e meio de altura), mas de baixa só tinha a altura, pois possuía um forte caráter, ela se preocupava com todos, amparando sempre que achava necessário, não deixava que problemas pessoais afetassem seu comportamento que, na maioria das vezes divertia a todos. Sempre que terminava de rir passava a mão para ajeitar seus cabelos pintados de vermelho com tons alaranjados, não que eles se bagunçassem a ponto de deixá-la feia, alias parecia que aquilo a deixava ainda mais bonita, pensava Andhy - que era o único homem no grupo. Nuca fora muito de falar e como normalmente acontecia, ele observava suas amigas conversarem em silêncio, apenas observava analisava e admirava. Seu olhar ia de uma a outra, minuciosamente como se lesse um texto em cada uma, como se procurasse algo que revelasse quem realmente eram.

Seu olhar saiu de Karla e pousou em Flávia. Um pouco mais alta que Karla, com cabelos ruivos e uma pele tão clara que quando o sol batia em seu rosto chegava a ofuscar quem a olhasse. Andhy sentia esse efeito, mas não se importava, o incomodo que o sol provocava em seus olhos não era suficiente para que ele desviasse sua atenção de Flávia, ela era a quem achava mais interessante de analisar. Era decidida, corajosa, com uma força interior que ele encontrara em poucas pessoas, e ela tinha uma visão que suas amigas não tinham, podia enxergar a verdade, apesar dele nunca ter estado bem certo se ela a alcançava.

Mudou o olhar para Adriana que entre todos era a mais alegre. Nunca a vira chateada, enfurecida ou deprimida, até nas situações mais desfavoráveis ela conseguia sorrir. Entre as amigas, Andhy pensou, ela era a que menos pintava o cabelo, pois sua cor não mudava a cada semana. Adriana era um pouco desligada, era sempre a última a perceber algo que acontecia, por mais absurdo que fosse.

Agora Andhy retinha toda sua atenção em Nina. Era a mais alta entre elas, era esbelta e elegante, a cor do seu cabelo era a que mais mudava, deve ter mudado, naquele semestre, umas treze vezes, pensou Andhy se divertindo ao imaginar varias Ninas com o cabelo mudando constantemente como se fossem mágicos. E riu ao mesmo tempo em que suas amigas diziam algo engraçado, e provavelmente pensaram que ele compartilhava da graça. No entanto sua percepção estava não nelas, mas em outra pessoa, que apesar de estar nas proximidades, a vegetação impedia de que fosse possível vê-la.

Mas ele sabia quem estava lá. Esse alguém o procurava, e sabia que Andhy também estava lá. Andhy sabia por que estava sendo procurado. Mas sua preocupação não estava em si, mas sim em suas amigas. Pensava o que poderia acontecer a elas se visse nelas o mesmo que ele.

- Andhy. - Ouviu chamar. Sua atenção voltou para suas amigas que o olhavam com ares de curiosidade. Voltou seu olhar para Nina, “ela é linda”, pensou, fascinante era a sensação que seu olhar lhe causava. Seu sentimento por ela era diferente do que sentia pelas outras.

Sorriu para as quatro garotas, levantou-se de repente, dirigiu-se a Nina, prostrou-se ao seu lado. Ela olhou-o, curiosa com sua repentina atitude.

- Nina, preciso lhe dizer antes que aconteça, não precisam se preocupar comigo. É meu destino. - Olhou para todas elas e voltou seu olhar a Nina - Nina desculpe por ter demorado tanto por perceber algo tão óbvio, mas é que tive que reter minhas atenções em coisas mais urgentes. Não que você não tenha prioridade em meus pensamentos, mas tive que escolher entre você e ao resto da humanidade, bom e a verdade é que não preciso me preocupar tanto assim com vocês, - olhou novamente para as outras sentadas à mesa, que se perguntavam sobre o que falava o amigo. - Por isso mesmo resolvi, que este é o melhor momento para lhe dizer. - Tocou-a no rosto e fixou seu olhar no dela, deu um leve sorriso que a fez queimar por dentro. - Nina, é incrível que eu esteja sentindo isto, sua alma é realmente diferente, sinto ter que me despedir assim sem sequer dizer o porquê, não tenho muito tempo, sei que agora você pode ter certeza ao olhar em meus olhos. - Nina fitava o olhar de Andhy absorta. Ela podia ler claramente em seus olhos, e entendeu o que queria dizer. Um calafrio tomou conta de seu corpo, sentiu uma pontada no peito e mordeu de leve os lábios inferiores. Respirou fundo, mas antes que dissesse qualquer coisa ele abaixou-se para emparelhar seu rosto ao dela, fitou profundamente seu olhar e ela sentiu, naquele momento, que ele a sondava, que podia ver sua alma, sentia como se a essência vital de Andhy passasse para ela. “- Andhy...” - tentou falar, mas antes que continuasse, os lábios de Andhy tocaram nos dela. Aquilo para ela era mais que um beijo era uma confidência, um pedido de desculpa, um pedido de ajuda. Ela sentiu seus olhos inundarem sob as pálpebras e Andhy sentiu as lágrimas de Nina tocar sua face. Sentiu seu coração se comprimir. Afastou o rosto vagarosamente e a olhou condescendente, sorriu e levantou-se. Virou-se para as outras amigas - e sussurrou:

- Adeus. Sentirei saudades. - Foi se afastando. Enquanto as observava e era observado, uma nuvem escura cobriu o sol. Uma sombra quase sobrenatural cobriu-os e parecia ocultar a imagem de Andhy, possibilitando ver apenas sua silhueta. Alguns segundos depois a nuvem desobstruiu a luz do sol afastando a sombra e as quatro garotas pasmaram. Ele havia sumido, como se nunca estivesse estado ali. Elas entre olharam-se imaginando o que acontecera.

- O que houve com ele? - Perguntou Adriana incrédula.

- Caramba, eu sabia que ele era meio estranho, mas não tanto. - Comentou Karla impressionada.

Nesse momento Flávia levantou-se e fixou o olhar onde Andhy estivera parado e falou:

- Gente isso é mais sério do que vocês pensam. Havia algo diferente em seu olhar. Não era o mesmo olhar calmo e despreocupado de antes. Ele parecia muito apreensivo com algo muito sério que esta preste a acontecer. Parecia que ele queria nos poupar. Mas não entendo do que.

Karla e Adriana olharam-na, espantadas com a dedução da amiga. Nina, que mantinha o olhar fixo em seus joelhos, respirou fundo e devagar, ergueu o rosto, os olhos inundados pelas lágrimas, olhando o céu, e disse:

- Ele se despediu, como se nunca mais fosse voltar, como... Como se... Se ele... Se ele fosse... Morrer. Como se fosse sacrificar sua vida. - Neste momento ela procurou, assustada, os olhares das amigas, o rosto já molhado pelas lágrimas que escorria. - Gente. Precisamos fazer alguma coisa, acho que ele vai tentar algo como suicídio. - Karla e Adriana fitaram-na pasmadas com o que acabavam de escutar, Flávia olhou-a com uma expressão de que concordava.

- Bom, então não deveríamos ir atrás dele para tentar impedi-lo? - Sugeriu Adriana com um ar de quem falava algo muito óbvio. Adriana na verdade ainda não alcançara a complexidade do assunto, pois Andhy sempre fora tão esquisito, que agir dessa forma já havia se tornado algo tão natural para ela, quanto tomar café da manhã. Por isso era de se esperar que a ficha ainda não tivesse caído.

- Claro que sim, mas não sabemos aonde ele se encontra. Ele sumiu do nada. - Retorquiu Karla demonstrando aflição em sua voz.

- Tem razão Karla, por isso mesmo deveríamos começar a procurar agora... - Ia Flávia dizendo quando um clarão vindo ao norte por entre as árvores ofuscou a visão delas.

Flávia olhou, enquanto a visão volta-lhe aos poucos, em volta e constatou um fato estranhíssimo. As poucas pessoas que se encontravam na lanchonete pareciam paralisadas.

- Algo muito estranho esta acontecendo aqui. Olhem. Essas pessoas não estão se mexendo como faziam há pouco. – observou Flávia sentindo um frio na espinha, esperando não ser a única que constatava aquilo.

- Não Flávia. Não são apenas as pessoas que não se mexem. Tudo em nossa volta parece ter parado. - Confirmou Karla, que falou sentindo um vácuo na garganta, ainda mais absorta que Flávia.

As quatro olharam em sua volta. Um homem levava uma lata de refrigerante à boca, mas parecia que ele jamais sentiria o metal gelado da lata encostar em seus lábios. Folhas levantadas por uma forte brisa que não soprava, pairavam no ar, assim como um redemoinho de poeira que não girava. Os pássaros haviam impedido seus voou em pleno ar.

- Aí que legal! – exclamou Adriana, achando aquilo divertido, e as amigas a olharam perguntando-se se ela realmente estava entendendo que tudo aquilo não devia estar acontecendo.

- NÃO! - Gritou Nina angustiada olhando em direção da origem do clarão. Suas amigas voltaram à atenção a ela - Andhy, ele esta em perigo. Precisamos ajudá-lo.

Flávia respirou fundo tentando reunir forças para se manter calma e perguntou:

 - Você sabe onde ele se encontra?

- Por ali - Nina, trêmula, apontou para o norte e voltou seu rosto, contorcido por tentar impedir o choro, rapidamente para as amigas. - Precisamos ir logo.

Flávia tomou a frente e correu na direção em que Nina apontara. Foi seguida por Ela, logo atrás veio Karla, com Adriana indo logo depois.

Tomaram uma pequena trilha que ia subindo ao lado de uma cachoeira que ficava à esquerda. Do outro lado a vegetação formava uma parede espessa com vários tons de verde. Outro clarão mostrou que seguiam na direção certa. Correram mais rápido preocupadas com o amigo. Subindo a trilha, agora, já podiam visualizar a fonte do jardim, que ficava num dos pontos mais alto do local. A fonte era constituída de nove anjos feitos de mármore em torno de um grande jarro, do qual jorrava nove jatos de água, um para cada anjo e caia em um lago que deveria medir uns dezoito metros de diâmetro. As garotas ouviram o som de algo caindo no lago. Aquele som deu-lhes a impressão de que era um corpo que caia. O corpo de Andhy! - Pensaram -. Prenderam a respiração por um momento, e correram o mais rápido que conseguiam, para atingir o topo daquele elevado.

Ao atingir o cume presenciaram, perplexas, o corpo de Andhy inerte boiando dentro do lago. Todas sentiram que iam gritar, mas som algum chegou a sair de suas bocas. Karla precipitou-se para dentro do lago, que era raso, - a água chegava aos quadris de Karla - levantando a cabeça do amigo então a posou em seu colo. Flávia aproximou-se rapidamente e verificou o pulso dele. Adriana ajoelhou frente à Flávia e olhou-a com uma pergunta nos olhos, e com um olhar em resposta Flávia tranqüilizou-a.

Nina olhava absorta para seu amigo que jazia sobre as águas límpidas do lago. Estava paralisada, sem saber o que deveria fazer.

- Como vocês podem estar aqui? Isto e impossível. - Ouviram uma voz à frente delas. Deu-se conta de que não tinham percebido a presença do homem que se encontrava logo à frente. Elas o olharam. Vislumbraram um homem alto de cabelos negros, compridos e ondulados, olhos castanho claro e tenaz, sua púbis era pálida, como se a muito tempo não fosse tocada pelos raios do sol. Sua vestimenta era toda negra, camiseta e calça com um Sobretudo de malha fina. Por um momento aquelas vestes lembraram-nas as do amigo. Ele estava parado em pé a uns dez metros do lago.

- Quem é você? - Perguntou Flávia.

- Quem eu sou não importa no momento. O que importa é saber como vocês estão aqui. Humph! Não sabia sobre vocês.

Flávia levantou-se intrigada. - Como assim? Você fala como se não fosse possível estarmos aqui. - Flávia serrou os olhos como se assim pudesse enxergar além da face dele. - O que é você? O que você quer dizer com “não sabia sobre vocês?”.

- Menina você faz perguntas demais. Eu tenho as respostas que deseja, mas não posso dá-las a você. Seria muito arriscado, levando-se em conta o fato de que vocês podem estar presenciando esse momento. Por isso devo tomar uma providência. - Ele levantou a mão direita lentamente enquanto esta se enchia de um brilho avermelhado. Flávia, Karla e Adriana ficaram atônitas ao ver aquilo.

Por um instante não puderam ver nada além do vulto esguio de Nina que se prostrou frente a elas. Então o clarão que se aproximava com rapidez, pareceu ser impedido por ela.

Passado isso, Nina sentiu, de súbito, que suas energias esvaiam-se de seu corpo. Caiu de joelhos apoiando-se sobre as mãos e arfando. Adriana e Flávia foram até Nina para ampará-la.

- Como? - Lançou um olhar incrédulo para Nina. - Devo fazer algo agora, antes que seja tarde demais. - Pensou aquele homem que agora se mostrava mais ameaçador do que parecera. Ele abriu os braços simulando um crucifixo, as palmas de suas mãos brilharam, aquele brilho condensou-se formando duas esferas luminosas de tom azulado. - Vou destruir a todos agora mesmo. - Falou num tom de intolerância, como se tivesse sido ofendido. Com um gesto de quem atira algo, as esferas desprenderam-se de suas mãos em movimento espiral na direção dos cinco amigos. Flávia, Adriana e Nina levantaram-se, com os braços à frente do rosto, na intenção de proteger o amigo.

Ouviu-se então uma voz quase que sobrenatural vindo de trás delas. Viraram-se receosas do que veriam. Viram Karla de pé estupefata fitando Andhy em pé flutuado um palmo acima d’água com leves ondulações sob seus pés. - Você não fará nada contra elas. - As esferas pararam em pleno ar.

- Andhy! - Elas gritaram em uníssono. Ao dizerem seu nome, o corpo de Andhy, que ainda flutuava sobre o lago, emanou uma luminosidade tão intensa, que foi envolvendo tudo que se encontrava ao seu redor. Esse brilho não parecia ofuscar apenas a visão de suas amigas, mas também os demais sentidos. Dava-lhes a sensação de não pertencer a esse mundo. Parecia não ser real. Como se fosse um sonho. Perguntaram-se se essa sensação era a mesma a que se sente ao morrer.

 


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